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Música e história

Enviado por StudioClio - At..., seg, 30/05/2016 - 17:46

Luiz Antonio de Assis Brasil é um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea. Seu romance de estreia “Um quarto de légua em quadro”, que completa exatos 40 anos em 2016, foi lançado na 32ª Feira do Livro de Porto Alegre e lhe rendeu o Prêmio Ilha de Laytano. Depois de mais cinco livros lançados o escritor iniciou, em 1985, a Oficina de Criação Literária na PUCRS, em atividade até hoje e que recebeu o Prêmio Fato Literário, da RBS/Banrisul, em 2005. A oficina foi o primeiro passo para a criação dos cursos de graduação, mestrado e doutorado em escrita criativa, inéditos no país.

O renomado escritor passa a integrar a equipe de docentes do StudioClio este ano, apresentando as ilhas portuguesas no “Almoço Clio | Açores” e orientando o curso “Seminário Poético: escreva seu romance”, em que ensina as técnicas para a criação literária. Com o StudioClio ele conversou sobre sua carreira musical, a criação literária, sua relação com Açores, seus próximos projetos e como vê a literatura e os escritores contemporâneos. Confira:

Além de seguir a carreira literária o senhor também tocou violoncelo, na OSPA inclusive. Como foi essa carreira musical?

Eu toquei violoncelo durante 15 anos. Eu era muito jovem quando comecei, era praticamente um adolescente. Toquei na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, foi uma belíssima experiência. Inclusive o livro que eu entreguei esse ano para a editora, o protagonista é um violoncelista. Não foi publicado ainda, se chama “O Inverno e Depois”. Vai sair pela editora L&PM, creio que em setembro. Eu tenho também outros livros em que a música é tema, como o “Música Perdida”. Esse que vai sair agora o protagonista é, de fato, um violoncelista.

Então essa experiência na música repercute na sua criação literária. Como ela influencia?

Eu acho que de duas maneiras. Uma é pela questão da musicalidade da frase. A frase tem que ter uma musicalidade. Mesmo que a pessoa não leia em voz alta, mas lê com a sua respiração, isso faz parte. A leitura silenciosa é uma aquisição da cultura muito recente. As pessoas lêem movimentando seu diafragma de acordo com o ritmo da leitura, mesmo que seja uma leitura silenciosa. É preciso ter uma musicalidade, a frase precisa ter um determinado ritmo, então me influencia dessa maneira, a musicalidade. Isso me faz ler em voz alta alguns textos pra ver se eles estão funcionando bem. [A música] também é importante como tema. Eu tenho agora três livros cujo tema é a música: “O Homem Amoroso”, “Música Perdida” e agora “O Inverno e Depois”. Esse último é um livro que eu acho que as pessoas vão estranhar um pouco, estão acostumados com uma outra literatura que eu faço, que em geral remete a algum tema histórico.

Esse aspecto da criação literária, que o autor tem que realmente colocar muito de si nos livros, como o senhor enxerga isso?

Eu acompanho muito os meus alunos da Oficina Literária e eles escrevem, todos eles, em primeira pessoa. As obras tem uma menor ou maior presença da própria biografia. Chamam isso de auto ficção biográfica. Isso existe no tempo de hoje, é muito forte. Esses meus alunos que fazem sucesso, como Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Paulo Scott, todos escrevem em primeira pessoa, com um forte componente autobiográfico. Isso é uma tendência da literatura de hoje. No meu livro, apesar de ter alguns componentes autobiográficos o narrador é em terceira pessoa. Tem aqueles que não tem problema nenhum em se expor, haja vista as redes sociais, em que dizem tudo que fazem, então é algo da nossa época. Eu não acho isso bom nem mau, isso é o que é. Contra um fato cultural, uma tendência cultural a gente tem que ter uma atitude muito de compreensão porque isso é agora, vai ser depois substituído por um outro modo. Os alunos hoje são muito diferentes de quando comecei a oficina há trinta e um anos. Antes as pessoas vinham para melhorar seu texto, hoje não, as pessoas querem ser esse texto. Por isso eu penso que nós estamos perante um fato, uma circunstância que eu não sei como será substituído.

Essa oficina literária que o senhor ministra na PUCRS começou em 1985. Como é dar um curso por trinta anos? 

De fato, é a oficina mais antiga do país. Isso só aconteceu porque há uma instituição que me apoia desde então, que é a PUCRS. As pessoas são selecionadas, porque são quinze vagas e com a seleção a gente pode fazer uma escolha razoável, de colocar todos em um certo nível. Eu pude perceber que eu trabalhava com pessoas que eram mais maduras, no ponto de vista da faixa etária, e que queriam melhorar o seu texto. Hoje esses alunos são cada vez mais jovens e mais profissionais. Essa experiência, que era para ser uma experiência, mas já está durando mais de 30 anos, ela gerou frutos, não só os meus ex-alunos que fazem sucesso, mas também porque nós criamos o mestrado e o doutorado em escrita criativa e a graduação que começou agora. É a única graduação do país em escrita criativa. Preenchemos todas as vagas e vamos fazer agora mais um vestibular de inverno. É uma turma de 40 alunos, são pessoas mais jovens, quem sabe depois vão seguir um mestrado, um doutorado, esse é um dos nossos objetivos. Até porque precisamos disso para termos professores para os diferentes cursos de mestrado, doutorado e graduação em escrita criativa que começarão a acontecer no Brasil. Eu tenho sido convidado para falar sobre essa experiência em Minas, São Paulo, Brasília, em universidades que viram isso e querem fazer. Eu penso que quanto mais houver melhor, porque as pessoas estão se deslocando. No caso do Mestrado e Doutorado a maioria é de fora do Rio Grande do Sul, eles vem para cá para isso

E como é sua relação com as ilhas de Açores? Como foi sua experiência lá?

O meu primeiro livro foi publicado há exatos quarenta anos. No dia 5 de novembro faz 40 anos. Foi um romance sobre o povoamento açoriano no Rio Grande do Sul, então a minha relação com Açores é muito antiga. Depois disso eu dei aulas de literatura brasileira na Universidade de Açores e depois eu fui para uma pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Açores. Fora disso, eu participo com muita frequência das atividades que o governo dos Açores tem. Esse ano, por exemplo, eu já estive duas vezes nos Açores, já fui doze vezes para lá, a maioria por razões de trabalho. Então a coisa começou de uma forma absolutamente natural. Eles me chamam muito para ir lá e falar sobre os açores.

Que aspectos da cultura açoriana o senhor destacaria? A presença dela no Rio Grande do Sul inclusive.

Eu penso que quase metade dos gaúchos tem algum antepassado dos Açores. Não se chegou a medir isso, mas pelo que falam os historiadores. Eu mesmo, o meu sobrenome é da ilha de São Jorge, foi um antepassado meu que veio com esse nome de lá. Nós temos, no tipo físico, uma presença muito forte, eu mesmo, lá, eu passo por açoriano.  Então nós temos uma descendência açoriana muito grande. Na música, o balao, o pezinho, a chamarrita, que aqui nós adulteramos para chimarrita. Essa Rita era uma personagem mitológica, era uma mulher com hábitos liberais, então a música falava “Chama a Rita de volta para casa”. Nós temos uma presença muito forte, nas festas do Espírito Santo. No interior do estado, nas zonas de mais forte povoamento açoriano nós temos o culto ao divino espírito santo, em Santo Antônio da Patrulha, Osório, Mostardas, São José do Norte, Caçapava que tem a presença da cultura ao divino espírito santo, isso é um aspecto muito forte da vinda dos açorianos para cá.

Como o senhor vê o cenário da literatura mundial e brasileira hoje?

Eu penso que a literatura brasileira está muito bem, estamos passando por um belo momento, uma literatura feita, em grande maioria, por pessoas muito jovens trabalhando com auto ficção biográfica, ficcionalizam a si mesmos, biograficamente, ela é caracterizada por isso. Nós temos também dois movimentos opostos em relação a publicação. Por um lado, as editoras grandes estão se fundindo umas às outras e formando grandes aglomerados, mas, ao mesmo tempo, estão surgindo pequenas editoras, quase artesanais, mas de muito boa qualidade, muito boa qualidade gráfica e de catálogo. Mesmo aqui no Rio Grande do Sul nós temos algumas dessas como a “Não” Editora, que são pequenas, mas com um catálogo de excelente qualidade. Penso que este é um fenômeno editorial. Também se publica mais, porque o custo do livro se tornou mais barato.

Nesses últimos anos parece que a literatura em português tem ganhado destaque, a de Portugal e também da África e do Brasil. Como o senhor vê esse movimento?

 É uma literatura emergente de muito boa qualidade. Creio que com o passar do tempo, um tempo bem próximo, as pessoas vão descobrir esses escritores e essas escritoras de países e fala de língua portuguesa e ver a grande qualidade que eles têm. Alguns já estão chegando muito bem aqui, o caso do Mia Couto, José Eduardo Agualusa, que são escritores de língua portuguesa. Porque antes nós não líamos aqui, a não ser Camões, Eça de Queiroz, Fernanda Pessoa, e por aí ficávamos. Hoje se lê muito mais a literatura portuguesa e africana. Antes, nós tínhamos o problema do transporte dos livros, isso já não é mais um problema. Tudo é mais acessível. 

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