Paulina Nólibos celebra a história do Ói Nóis | StudioClio

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Paulina Nólibos celebra a história do Ói Nóis

Enviado por Imprensa, seg, 01/04/2013 - 14:18

 

Poesia em ação: os 35 anos do Ói Nóis Aqui Traveiz
 
(texto originalmente publicado no Caderno Cultura, Zero Hora de 30 de março)
 
O grupo de teatro Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comemora seus 35 anos de atividades em meio ao processo de criação de uma nova produção épica, senão trágica: a Medeia – Vozes, adaptação da novela homônima de Christa Wolf sobre a personagem conhecida de Medeia. A variante usada pela autora, com a qual o grupo já trabalhou em Kassandra in Process, espetáculo de 2002, é muito diferente da de Eurípides. Na atual, ela não matou os filhos e nos oferece uma intrigante versão de como teria acontecido verdadeiramente a história. Outras vozes se somam à narrativa, pluralizando o local de enunciação do discurso cênico.
 
Seguindo a estética que marca o grupo, que valoriza a participação ativa do público, várias instalações cênicas estão sendo preparadas, cada uma com estilo próprio, para que a subjetividade dos personagens seja antevista pelo público por meio das referências visuais, sonoras, olfativas específicas de cada um dos ambientes. Experiência diferente das já propostas, este trabalho propõe a fragmentação da multiplicidade dos olhares/ vozes em confrontação física uns com os outros. Um espetáculo que produzirá certamente uma reflexão sobre a “verdade” e as “versões”, e o poder do enunciador sobre a história, ou sua versão dominante. Proposta que demonstra o fôlego sempre inovador e pesquisador do Ói Nóis Aqui Traveiz, presente no cenário teatral desde o final da década de 1970.
 
O dia 31 de março, que marca o aniversário do grupo, não é um dia qualquer na história deste país. Um dia que marcou a passagem da democracia ao governo militar, e um processo de discussão social a um longo momento de silêncio. Em 1978, Porto Alegre assistiu ao surgimento de um grupo de teatro que, intencionalmente, pautou sua existência pelo fatídico dia 31 de março numa necessidade de, desde seu começo, apontar para a importância da memória histórica, do não-esquecimento deste “algo” que aconteceu, inalienável e definitivo, e que alterou os destinos do país.
 
O grupo porto-alegrense não estava sozinho, e em 1978 a ditadura brasileira já era uma sombra de seus piores momentos. Vinham na trilha de uma experiência mais radical de teatro que ultrapassava a América Latina, e se espalhava pelos continentes. Anarquista, apartidário, o grupo produzia espetáculos híbridos, tragicomédias hilárias, horripilantes, de enredos confusos e assustadores, com presença de corpos nus, música e dança, vinculados ao Teatro da Crueldade de Artaud, a Brecht e ao teatro experimental americano.
 
Depois de 35 anos da primeira formação, a seriedade e a coerência do grupo frente ao seu trabalho criativo e a todo tipo de adversidade tem sido uma inspiração, e mobiliza tanto o poder público quanto a sociedade a seu favor. Um terreno no bairro Cidade Baixa foi cedido pela prefeitura, verba está sendo destinada à construção de um centro que atenda às qualificações de um teatro de pesquisa e de um espaço de encenação com as prerrogativas deste grupo, uma sofisticação em relação às salas convencionais de espetáculo.
 
Este é um momento de celebração de uma ideia e de ações no campo da práxis cênica e política. O grupo Ói Nóis Aqui Traveiz alterou qualitativamente o conceito de atuação teatral quando propôs que seus membros não sejam apenas “atores”, mas “atuadores” no sentido político e existencial do termo. E a memória histórica que norteou a formação do grupo também assegura hoje sua permanência, uma opção em continuar resistindo para que a imaginação permaneça a serviço da liberdade expressiva, para que não se percam os ecos das vozes dos vencidos nem a esperança de outro futuro.
 
PAULINA T. NÓLIBOS
Fundadora e docente do StudioClio, filósofa, doutora em História, pesquisadora, professora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) desde 2001, e uma das professoras-fundadoras da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo, em atividade desde 2000
 
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