Pecha Kucha Night: do Japão ao StudioClio – entrevista com o organizador André Czarnobai | StudioClio

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Pecha Kucha Night: do Japão ao StudioClio – entrevista com o organizador André Czarnobai

Enviado por studioclio, ter, 18/11/2008 - 19:30


André Czarnobai, mais conhecido como Cardoso, é um profissional multiuso. Jornalista por formação, atua em áreas como tradução e preparação de originais, produção musical, webdesign e consultoria criativa. Ao lado do escritor Daniel Galera, foi co-fundador, editor e colunista do CardosOnline, fanzine que circulou por e-mail entre 1998-2001, com mais de 280 edições. Foi Cardoso quem descobriu e trouxe a Pecha Kucha Night para Porto Alegre e para o Brasil, evento japonês inicialmente direcionado para designers e arquitetos, cuja idéia vingou e se disseminou pelo mundo. Agora, realiza sua quinta edição no auditório do StudioClio, no dia 26 de novembro, quarta-feira, às 19h30min. Em entrevista concedida no Café do Studio, elucidou idéias que estão por trás deste curioso evento.

Como você entrou em contato com a Pecha Kucha? Por que ela despertou seu interesse?

Eu trabalho para a empresa Box 1824, uma consultoria de tendências de comportamento e mercado (desde 2005). Estava fazendo uma pesquisa para a Nokia e descobri que havia um evento chamado Pecha Kucha, que começara havia alguns anos em Tóquio, mas que estava se propagando de maneira muito absurda. Foi o momento da descoberta de que os jovens de hoje em dia não somos os jovens de anos atrás, cujo sonho era provavelmente ter uma banda; em contrapartida, o grande sonho do jovem hoje em dia é ser estilista ou artista gráfico. Existe a mudança da música como grande unificador para as artes visuais. O jovem, hoje em dia, é muito mais ciente da estética visual do que era há 10 anos atrás. Achei a Pecha Kucha interessante por dar vazão a esse desejo de ver obras visuais e discutir sobre elas ou usar o suporte visual como um auxiliar na divulgação de uma idéia. Entrei em contato com o escritório em Tóquio, com o pessoal da KDa, e rapidamente se prontificaram, estavam muito afim de fazer um evento no Brasil. Assinamos um contrato renovável com os caras de um ano.

Você pode falar um pouco sobre todos que já foram feitos no Brasil?

Em Porto Alegre já foram quatro. São Paulo, cinco, pelo menos. A licença que o cara ganha pra Pecha Kucha é por cidade. Então não é Pecha Kucha Brasil, é Pecha Kucha Porto Alegre. Eles não gostam da idéia de alguém monopolizar. Eu não sou o responsável pelo Pecha Kucha São Paulo, é o Guilherme Kujawski, que organiza eventos no Itaú Cultural. Teve um evento, a Pecha Kucha Frankfurt, que fez uma participação especial no Rio de Janeiro durante um evento de design alemão. Não era uma Pecha Kucha Rio - era uma Pecha Kucha Frankfurt no Rio de Janeiro. Tem essas esquizofrenias na história.

Ou seja, apesar de você ter iniciado, a coisa já saiu de controle.

A idéia é essa, que ela saia cada vez mais do controle e se torne cada vez maior. Tem a ver com o conceito de vírus, de ele se espalhar e ganhar uma vida própria em cada lugar. Embora ele seja originalmente algo bem formal, de palestras em formato reduzido e de propor um network onde as pessoas apresentassem seus trabalhos, hoje em dia ele já tem um braço bem artístico, o que é muito valorizado pelo pessoal de Tóquio.

O Pecha Kucha SP aconteceu a partir de Porto Alegre?

Sim. Achei estranho que não havia Pecha Kucha em São Paulo. Rio de Janeiro também não. América Latina? Só Buenos Aires. Até por isso quis agilizar o processo: vamos ser os primeiros do Brasil. Fizemos então três edições no Brasil, e foi no processo de organização que o Guilherme Kujawski ficou sabendo que existia e veio para Porto Alegre para assistir. Ele se empolgou com a idéia e resolveu levá-la para São Paulo como parte do programa da Bienal da Emoção Artificial (que ocorria então).

O Pecha Kucha começou em Tóquio entre arquitetos e designers, mas parece ter ampliado muito o espectro de temas e de formas de apresentá-los.

O escritório da KDa é formado por ocidentais que se mudaram para Tóquio, formando, junto com os japoneses, um caldeirão multicultural. Eles queriam promover seu primeiro projeto, um prédio comercial chamado Super Deluxe, e não sabiam muito bem como. Queriam então fazer um espaço onde acontecesse um encontro onde designers e arquitetos pudessem falar de seus projetos de forma concisa. As primeiras edições foram focadas nesta área, mas não só dela vive o Japão - nem o mundo. O evento acabou atiçando a curiosidade de várias pessoas em várias disciplinas artísticas, que foram chegando primeiro como espectadores e depois como apresentadores. Aos poucos, estrangeiros visitando Tóquio e mesmo japoneses viajando para fora do Japão acharam que a idéia tinha potencial em outras cidades e começaram a fazer franquias em outras cidades, onde a cor local sempre provoca uma diferença. Há locais muito formais, como a Pecha Kucha Night Berlin, é bem mais palestra, menos performance (em comparação, por exemplo, com Porto Alegre). A diversidade é a coisa mais valorizada atualmente na Pecha Kucha. Em Toronto, o prefeito da cidade foi convidado e falou sobre como se governa uma cidade. Em Tóquio, uma mãe falou sobre o filho que já havia se apresentado. Em São Paulo, uma mulher dançava enquanto expunha textos e imagens. Em Porto Alegre, dois atores encenam um sketch. É quase um novo formato artístico.

Você falou em franquias. O Pecha Kucha tem fins lucrativos?

Qualquer pessoa interessada entra com contato com eles, sem cobrança alguma. O único compromisso é realizar, num prazo de um ano, quatro eventos - mas eles também não parecem estar muito preocupados com isso, querem mesmo é que o negócio esteja acontecendo. A única exigência é que o evento seja sem fins lucrativos. Mas não existe evento totalmente gratuito, claro que você pode cobrar ingresso para cobrir os custos. Em São Paulo, por exemplo, a imagem do Pecha Kucha está ligada ao Guilherme, e não ao Itaú, onde ele trabalha e onde foi realizado o evento. Ele pode levar o Pecha Kucha aonde quiser. Existe a preocupação de não atrelar o evento a nada, de que ele seja até mesmo itinerante. Minha idéia original era de que o Pecha Kucha nunca fosse duas vezes no mesmo local, mas isso não ocorre por falta de estrutura. Por isso acabamos fazendo tantas vezes no Ox. Essa mudança para o StudioClio já é uma mudança de ares que é muito positiva para o evento. Em outros lugares do mundo se faz em galpões, cinemas abandonados, locais públicos, parques, praças, o que já torna o evento uma manifestação em si.

O que você espera com a mudança do PKN para o StudioClio?

É muito difícil explicar o que é o Pecha Kucha. E quando nós fizemos a primeira edição nós também não tínhamos muita idéia do que era. Nós aprendemos a fazer com todo mundo. Apesar de o formato parecer restrito [são 20 imagens com 20 segundos para cada], você pode fazer o que quiser [com ele]. Em Porto Alegre, a primeira edição foi muito experimental, demais eu acho. E as seguintes foram muito influenciadas pela primeira. De forma que Porto Alegre é uma cidade onde a Pecha Kucha é muito conceitual, é muito pouco sólido o que acontece ali. A minha idéia ao trazer para o StudioClio era dar uma guinada para outra direção, mostrar um exemplo mais formal, como são microdebates, micropalestras, para inspirar as pessoas para a próximas edições. Minha idéia é então dar uma direção totalmente oposta para chegarmos a um meio-termo.

O Pecha Kucha lembra um pouco a idéia dos cafés intelectuais do século XIX, onde pensadores e artistas se reuniam para de debater, sem hora para acabar. Você concorda com isso?

Totalmente. É uma forma contemporânea de fazer isso. Justamente o fato de usar elementos visuais é um apelo a uma juventude, a uma geração de novos realizadores. Mas ao mesmo tempo não exclui os antigos. Estamos misturando imagens com palavras. Apesar de Porto Alegre ter um grande número de artistas e pessoas criativas trabalhando em várias áreas, elas dificilmente se encontram. E isso é o positivo: botar em contato muita gente que de outra forma nunca entraria em contato. Apesar da internet [fazer com que as pessoas se comuniquem], elas não entram em contato espontâneo. Quando a gente força que elas se encontrem, elas acabam - até por afinidades que elas não sabiam que elas tinham - se revelando em um apresentação e, no fim, se juntando, e disso saem coisas novas. Esse é o grande potencial [do Pecha Kucha], é o que mais me atrai.

Você já fez alguma apresentação?

Na primeira edição, o Bruno Noveli, que é um artista gráfico aqui de Porto Alegre, queria participar, mas não queria falar, não sabia bem o que fazer. Ele tem um trabalho focado na alquimia, tem um pouco de iconografia oriental também, desenhos do Japão antigo, mas é super contemporâneo. Ele consegue fazer uma releitura muito interessante da arte antiga oriental, mas ele dá um tom super contemporâneo, tecnológico até, parecem digitais algumas coisas, mas foi feito a mão. E aí eu participei da apresentação do Bruno. Eu fiz um texto que tinha a ver com as imagens dele e fiz uma trilha sonora, que rolava enquanto eu lia os textos. Depois eu apresentei na Pecha Kucha de Berlim. Eram as 15 coisas que estão passando na minha cabeça ultimamente. Daí eu falava de várias coisas. Na época, estavam ativando aquele LHC, o maior acelerador de partículas do mundo, que tinha a teoria de que ele ia destruir o mundo. Eu falava de um fenômeno chamado Colony Collapse Disorder, que é que as abelhas estão sumindo do mundo e tem gente que acha que quando as abelhas foram extintas a humanidade vai entrar em colapso também. Eram coisas meio apocalípticas. Mas aí eu falava do meu gato também, sobre videogame, viagens internacionais, coisas que eu pensava no momento. E tentei, claro, em cada um daqueles itens dar alguma informação relevante. Inclusive nessa Pecha Kucha agora eu vou apresentar uma palestra sobre o videogame que, quando se popularizou no Brasil, nos anos 1980, era um brinquedo. Ao longo dos anos, a primeira geração que se criou com o videogame como brinquedo foi se tornando mais velha, o videogame envelheceu com ela. Hoje, por exemplo, tem uma pesquisa nos Estados Unidos que provou que 93% dos pais jogam com os filhos. Então agora o videogame está em uma nova etapa, focando em jogadores adultos e entrando em um novo segmento que são as mulheres e a terceira idade. Mulheres acima de 40 anos são responsáveis por 80% da venda de jogos online. E mulheres na faixa dos 8 aos 12 anos, que é o público que mais cresce e era ignorado. Eu queria falar sobre como o videogame deixa de ser um brinquedo, uma coisa boba, que os pais reclamavam, para se tornar um produto super educativo que, mais que eu jogo, está se tornando uma narrativa tão importante quanto os livros e o cinema já foram, além de ser um negócio bilionário, que pode ser talvez a salvação pra essa crise... Não acredito nisso, mas, enfim, é um dos poucos mercados que está crescendo apesar de tudo que está acontecendo no mundo.

Para você como participante, e não como profissional, jornalista e idealizador de muitas coisas, qual é a coisa mais legal da Pecha Kucha Night? Onde reside o seu prazer pessoal com ela?

É difícil eu não falar como criador. Apesar de ser estressante - na última semana, por exemplo, quando todas as coisas têm que funcionar, elas geralmente não funcionam -, o que eu mais gosto é chegar às 20h20min no palco e falar "Boa noite, estamos começando a PKN Porto Alegre, volume tal", e aí as pessoas que estavam conversando param pra te ouvir e começa aquela maratona. Cada nova apresentação tem alguma coisa que dá errado, tem alguma coisa que tem que consertar na hora. Aquela adrenalina, aquele terror de estar ali no palco e ter que fazer as coisas funcionarem é o que eu mais gosto, particularmente. Mas falando como um espectador - porque quando as pessoas estão fazendo suas apresentações, eu sento e fico assistindo -, a coisa que eu acho mais legal é ver a reação das pessoas àquilo que está sendo mostrado. Porque têm coisas que são completamente inesperadas. Por exemplo, o Diego Medina. Eu esperei que ele fosse trazer o trabalho dele de artista gráfico, só que ele não fez isso. Ele pegou trechos de vídeos pornôs dos anos 1970, não a parte mais explícita, mas partes soltas. E ele montou 20 trechos de vídeos de 20 segundos. Na época, ele e a Desirée Marantes estavam lançando um negócio chamado Zombieoper, uma ópera zombie, um cd duplo que tu podes baixar inteirinho em http://www.zombieoper.com/. E eles estavam lá pra divulgar isso. Eles ligaram as guitarras em pedais de distorção. Aquilo fazia uma barulheira infernal e, de vez em quando, fazia um barulho de monstro. E as pessoas ficavam completamente horrorizadas com aquilo. E logo depois veio uma fotógrafa, com um trabalho super delicado, tirando fotos de flores, coisas singelas, joaninhas em gotas de orvalho. Dava um baita contraste. E a platéia era a mesma. Como eu já tinha olhado todas as apresentações, eu gostava de sentar virado pro público, pra ver como ele reage às diferentes manifestações que estão sendo mostradas no palco.

Você falou de pornografia. A Pecha Kucha Night tem algum tipo de censura?

Não tem restrição a nada, "duela a quem duela". Teve uma Pecha Kucha que teve um grupo de militantes vegetarianos. Eram 20 imagens de animais em abate, gritos, e as pessoas começaram a ficar meio inquietas na platéia, meio que se posicionaram contra aquilo. Quando eu subi no palco, eu estava meio empolgado e falei que, dos animais que tinham aparecido ali, o único que eu não comia era o cavalo. Eu fui muito aplaudido, e os vegetarianos levantaram e foram embora. Faz parte do negócio. Na verdade, quem vem pra uma Pecha Kucha Night tem que estar meio alerta de que tudo pode acontecer.

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