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A Grécia, todos sabem, é o território responsável pelo culto do vinho como bebida das elites. Lá, o suco de uva fermentado passou a ser considerado a mais civilizada das bebidas. Bebedores - como eram chamados os amantes do vinho - reuniam-se em confrarias para debates divertidos e competitivos, em que um tentava superar aso outro em inteligência, poesia ou retórica, como diz Tom Standage em seu livro História do Mundo em Seis Copos.
Essas reuniões eram consideradas o auge da sofisticação social, além de um incentivo ao hedonismo. Participavam, por exemplo, ninguém menos do que Sócrates e Platão (o primeiro chegou a ser descrito pelo outro como um "bebedor ideal" - aquele que busca a verdade ao beber o vinho, sem jamais perder o controle sobre si mesmo).
Se até hoje o vinho mantém sua simbologia de poder e riqueza, agora é a vez da cerveja requerer um status mais elevado entre os álcoois. No Brasil o movimento de sofisticação do consumo é recente., e agora conta com um grupo de entusiastas formado por empresários, executivos e formadores de opinião, que criaram uma confraria de bebedores de cerveja. Trata-se da Sociedade Baden Baden, que pretende celebrar a mais antiga bebida do mundo - criada há 10 mil anos na Mesopotâmia por acaso, a partir da dificuldade de se armazenar cereais em locais à prova d'água (bem, descobriu-se que, embebidos no líquido primordial, os grãos transformavam-se em mingau efervescente e agradavelmente embriagante).
O primeiro encontro da sociedade de amantes da cerveja não recriou uma comemoração na Mesopotâmia, nem um festim na Grécia. Aconteceu no D.O.M., de Alex Atala, onde a modernidade impera. Convidados chegaram em belos carros - muitos com motorista particular devido à Lei Seca - para tilintar não taças de cristal, mas canecas.
Os publicitários Washington Olivetto e Luiz Lara, a escritora Fernanda Young, Carlos Tilkian (presidente da Estrela), Carlos Betancourt (presidente da Bracor Investimentos Imobiliários), o músico Nando Reis, Carlos Ferreirinha, consultor de gestão de luxo e colunista da Gazeta Mercantil, entre outros, dividiam-se entre sessões de foto e bate-papo animado com goles da bebida.
Alex Atala recebia a todos com intimidade, sorriso e boa comida - foie gras com espuma de cerveja, consommé de cogumelos ao perfume da Amazônia, cupim em baixa temperatura com puré de batata e pequi. Harmonizou até mesmo uma torta de chocolate com a cerveja Stout da Baden Baden, que tem traços de café. Disse que, no "gastronomês", harmonizar pratos e bebidas nada mais é do que quando a "comida faz carinho na bebida e vice-versa". "Se alimentação é algo vital, comer e beber ao mesmo tempo é o que há de mais sublime. Então, vale tudo, bons vinhos, champanhe e até cerveja", resumiu o chef.
A bebida servida não deixou a dever à culinária sofisticada de Atala. Os mestres cervejeiros da Baden Baden serviram, entre outras, a Tripel, historicamente produzida nos monastérios belgas e holandeses, que estará disponível no mercado a partir deste mês. "A bebida tem tripla fermentação e um longo processo de maturação, o que lhe confere coloração ouro- avermelhado, corpo marcante e alto conteúdo alcoólico (14%)", disse Juliano Mendes, gerente de marketing das cervejas especiais da Schincariol, que comprou recentemente a Baden Baden. "Tem edição limitada de apenas 2.500 unidades numeradas. Os aromas trazem uvas vermelhas e avelã. Quase não espuma, devido ao elevado teor alcoólico. Tem corpo intenso e macio."
Assunto da noite
A Lei Seca foi um dos assuntos prediletos na noite do primeiro encontro da confraria. Olivetto, um dos entusiastas da reunião, dizia: "O bêbado costuma ser o maior inimigo da indústria do álcool. Ele quem gera o preconceito em torno das bebidas alcoólicas. Num encontro de degustadores, é importante que os convidados saibam apreciar deste universo organoléptico [que impressiona os sentidos]. Nossa, fazia tempo que não citava esta palavra, da qual tanto gosto. Não deixe de colocá-la na sua reportagem, viu?", divertia-se Olivetto.
Ronaldo Gasparini, vice-presidente de atendimento da W/Brasil, dizia que, na Europa, os mestres cervejeiros têm um trabalho muito atrelado à boa gastronomia. "Importante que o Brasil descubra este movimento. Encontros assim podem nos mostrar como a cerveja evolui com o passar do tempo", afirmava Gasparini. A escritora Fernanda Young contou que a possibilidade de se reunir em torno de grandes cervejas chamou-lhe a atenção. "Trata-se da bebida que mais invoca a alegria. Mais que o vinho. É a bebida que mais tem a ver com o Brasil ", dizia a moça, que afirma ser "cervejeira". "Dizem que engorda, mas olha aqui [passa a mão no ventre]. Não tenho um centímetros de barriga."
Ela ouvia atenta às explicações do Juliano Mendes, da Schincariol, sobre cada uma das oito cervejas degustadas na noite. "Se no Brasil há esta cultura de beber cerveja no boteco, queremos trazer ao País a cultura da boa bebida fermentada", observava ele.
Sofisticação
Para Cilene Saorin, beer sommelière e professora da Universidad Politécnica de Madrid, na Escuela Superior de Cerveza y Malta, o movimento de sofisticação do consumo da cerveja no Brasil tem passado por um momento efervescente. "A criação de cervejas com informação de requinte está na pauta do dia dos fabricantes nacionais", diz. Ela conta que este mercado tem recriado aqui, o que a Inglaterra fez ao criar o Beautiful Beer, associação que concedeu lugar de honra à cerveja naquele país.
Para além da Sociedade Baden Baden - em que novos sócios são chamados a partir de convite de um dos 50 sócios-fundadores -, Cilene sugere o Frangó, o Anhanguera, o Drake's, o Salommão, o Asterix, e o Tortula, como lugares onde o entusiasta da bebida dourada pode encontrar belos rótulos e gostos variados. "A carta destes lugares é um convite a um mundo rico em sabores, que vale a pena ser desvendado", avisa Cibele, que comemora a criação da confraria.
Fonte: Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 14 - Alexandre Staut |